A farsa em torno de William Shakespeare como autor de suas obras revela como o poder fabrica a realidade consensual. A farsa de Shakespeare não se tratava apenas de ocultar a identidade de um autor; tratava-se de criar um mito nacional poderoso o suficiente para moldar séculos de desenvolvimento cultural.
Hoje, ao questionarmos outras “histórias oficiais”, a questão da autoria de Shakespeare permanece como prova de que nossas crenças culturais mais queridas podem ser ficções elaboradas, projetadas para servir a interesses dos quais nunca suspeitamos.
No final, a maior ironia pode ser que as peças criadas para servir ao império, em última análise, servem à verdade.
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O seguinte é um trecho de um ensaio de Mentiras são impróprias intitulado 'A Decepção de Shakespeare: Autoria, Império e Mitos FabricadosDividimos o ensaio em 5 partes. Abaixo está a quinta e última parte. Você pode ler a Parte 1 AQUI, Parte 2 AQUI, Parte 3 AQUI e parte 4 AQUI. Se você quiser ler o ensaio de uma vez, pode lê-lo no Substack AQUI.
A Decepção de Shakespeare: Autoria, Império e Mitos Fabricados - Parte 5
VIII. Conclusão: A Verdade por Trás da Máscara
Edward de Vere, 17º Conde de Oxford, foi o principal autor das peças de Shakespeare, escrevendo com base em sua experiência pessoal, educação de elite e conhecimento privilegiado da corte, entre aproximadamente 1580 e sua morte em 1604. As peças eram arte autobiográfica que também servia como propaganda Tudor, algo que de Vere provavelmente compreendeu e talvez até tenha abraçado, dada sua posição na corte de Elizabeth. Sua vida – traumática, privilegiada, culta e conflituosa – forneceu a matéria-prima que o gênio transformou em arte universal.
Após a morte de De Vere, Francis Bacon e um círculo de intelectuais, incluindo Ben Jonson, reconheceram o potencial imperial dessas obras. Eles criaram o mito de William Shakespeare – usando a conveniente existência do ator/empresário de Stratford como fachada – e publicaram a obra. Primeiro fólio em 1623. Isso não era apenas uma fraude literária; era engenharia social em grande escala, criando um mito nacional que moldaria séculos de cultura inglesa e mundial.
O mito teve um sucesso que superou suas expectativas mais ousadas. A história do gênio inculto da Inglaterra rural tornou-se um pilar da identidade britânica, fomentando a confiança cultural que ajudou a construir um império. Shakespeare tornou-se o Homero da Inglaterra, mas, ao contrário deste, foi concebido para ser misterioso e democrático – um ninguém que se tornou o poeta de todos. Através de escolas, teatros e lojas maçônicas, o mito se espalhou pelo mundo, fazendo com que os padrões de pensamento ingleses parecessem universais e naturais.
O engano revela como o poder fabrica a realidade consensual. A farsa de Shakespeare não se tratava apenas de esconder a identidade de um autor; tratava-se de criar um mito nacional poderoso o suficiente para moldar séculos de desenvolvimento cultural. Hoje, ao questionarmos outras "histórias oficiais" – desde armas de destruição em massa até as origens de uma pandemia – a questão da autoria de Shakespeare se apresenta como prova de que nossas crenças culturais mais acalentadas podem ser ficções elaboradas, concebidas para servir a interesses dos quais nunca suspeitamos.
A verdadeira tragédia não é que fomos enganados sobre quem escreveu Hamlet – é que fomos ensinados a venerar gênios inexplicáveis em vez de compreender que a grande arte advém da experiência vivida, da educação, do sofrimento e do trabalho dedicado. A biografia de De Vere torna as peças humanas e acessíveis; o mito de Shakespeare as torna divinas e intocáveis. Uma serve à verdade e à compreensão humana; a outra serve ao poder e ao império.
Ao nos encontrarmos em outro ponto de inflexão histórica, quando antigos impérios desaparecem e novos poderes surgem, quando a própria informação se torna um campo de batalha, o engano de Shakespeare oferece tanto um alerta quanto uma esperança. O alerta: que narrativas falsas, uma vez estabelecidas, podem moldar a realidade por séculos. A esperança: que a verdade, por mais tempo reprimida que seja, eventualmente emerja. As peças continuam sendo uma grande obra de arte, independentemente de quem as escreveu, mas conhecer seu verdadeiro autor nos permite lê-las como foram escritas – como a tentativa de um homem de dar sentido à sua vida e à sua época, não como emanações misteriosas de um gênio impossível.
A máscara está caindo. Por trás dela está não o empresário de Stratford, mas Edward de Vere, e atrás dele, Francis Bacon e os arquitetos do império. Mas por trás de todos eles estão as próprias peças – canções de amor à linguagem, espelhos da natureza humana, testemunhos da verdade que o poder tenta esconder, mas que a arte preserva. No fim das contas, essa talvez seja a maior ironia: as peças concebidas para servir ao império, em última análise, servem à verdade, revelando em sua própria existência o elaborado engano necessário para fazê-las servir aos propósitos do poder.
A questão agora não é apenas quem escreveu Shakespeare, mas o que faremos com a verdade depois de aceitá-la. Continuaremos a venerar o falso gênio ou finalmente veremos as peças como elas realmente são – o sofrimento transformado de um homem brilhante, culto e problemático, cuja biografia ilumina cada verso. A escolha, assim como a própria verdade, é nossa.

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