Uma disputa sobre o tratamento de jornalistas no Cazaquistão teve início. atraiu atenção internacional Este mês, após seis organizações de defesa da liberdade de imprensa e dos direitos humanos instarem o presidente Kassym-Jomart Tokayev a retirar as acusações criminais contra vários jornalistas e a reformular partes da lei de imprensa do país, o caso ganhou força. Os fatos imediatos são específicos do Cazaquistão: jornalistas em prisão domiciliar, processos relacionados a “informações falsas” e um forte apelo de grupos de vigilância. As questões levantadas pelo caso, contudo, não são exclusivas da Ásia Central. Elas se relacionam a uma questão mais ampla sobre a liberdade de expressão, agora visível em muitos países, à medida que investigamos até que ponto os governos podem ir na regulamentação da liberdade de expressão, da informação e do acesso à mídia antes que a supervisão legítima comece a restringir o espaço para o jornalismo independente.

A atual controvérsia gira em torno de uma carta conjunta enviada em 13 de abril por seis organizações lideradas pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas. De acordo com a Associated PressOs grupos disseram estar alarmados com uma série de prisões de jornalistas e com o que descreveram como crescente pressão sobre a mídia independente. Eles instaram Tokayev a garantir a libertação dos jornalistas processados por seu trabalho e a retirada das acusações contra eles. Gulnara Bazhkenova, Amir Kasenov, Aset Matayev e Botagoz Omarova estariam entre os que se encontram em prisão domiciliar enquanto aguardam julgamento.
A carta foi assinada pelo Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) e outras cinco entidades. descreve as reivindicações específicasO documento afirma que, desde dezembro de 2025, quatro jornalistas independentes de destaque foram colocados em prisão domiciliar preventiva, três deles sob a acusação de disseminar informações falsas, de acordo com o Artigo 274 do Código Penal do Cazaquistão. Caso sejam condenados por essa disposição, a carta observa que eles podem enfrentar penas de prisão de até três anos. Os signatários argumentam que esses casos se somam a outras formas de pressão, incluindo o bloqueio de veículos de comunicação e restrições que afetam jornalistas que trabalham para a Rádio Azattyk, o serviço cazaque da Rádio Europa Livre/Rádio Liberdade.
As alegações variam de caso para caso. De acordo com a carta:
- Gulnara Bazhkenova foi acusada após declarações feitas durante um programa de notícias no YouTube, alegando que um ministro do governo estava envolvido em corrupção e outros crimes graves, embora a carta diga que as acusações formais estariam ligadas a outros materiais e podem ter sido uma retaliação;
- Amir Kasenov, do KazTAG, foi colocado em prisão domiciliar após acusações decorrentes de uma queixa apresentada pela empresa de serviços financeiros Freedom Finance, cujo principal acionista, Timur Turlov, acusou o veículo de conduzir uma "campanha de informação" contra ele;
- Aset Matayev, diretor da agência, foi inicialmente acusado de fornecer informações falsas na mesma disputa relacionada ao KazTAG, mas essas acusações foram posteriormente retiradas e substituídas por um processo separado por vandalismo após um suposto incidente de agressão;
- E Botagoz Omarova teria sido acusada por uma publicação em seu canal no Telegram sobre alegações de que uma empresa que construía um estábulo sob encomenda da presidência não havia pago os subempreiteiros.
Esse contexto jurídico é fundamental para entender por que o caso teve repercussão internacional. Repórteres Sem Fronteiras A RSF afirma que a Constituição do Cazaquistão proíbe formalmente a censura, mas acrescenta que "espalhar intencionalmente informações falsas" continua sendo crime, mesmo após a descriminalização da difamação. A organização também afirma que a reforma da lei de mídia de 2024 fortaleceu o controle estatal sobre a imprensa e permite que o Ministério das Relações Exteriores negue credenciamento com base em amplos critérios de segurança nacional. Human Rights WatchEm reportagem separada no ano passado, o jornal criticou a recusa em renovar o credenciamento dos jornalistas da Rádio Azattyk e descreveu a medida como um claro golpe contra a mídia independente.
A situação imediata do Cazaquistão, portanto, é bastante simples. Grupos de defesa da liberdade de imprensa afirmam que as leis do país deixam muita margem para processos criminais contra reportagens críticas e que as recentes acusações se encaixam em um padrão mais amplo de pressão sobre veículos de comunicação independentes. As autoridades não apresentaram, nas reportagens citadas aqui, uma resposta pública detalhada à última carta. O que fica claro é que a disputa não se resume a uma manchete ou a uma redação específica. Ela diz respeito às condições em que os jornalistas podem trabalhar e até que ponto as disposições legais destinadas a combater a falsidade ou garantir a segurança podem ser aplicadas a reportagens que desagradam a interesses poderosos.
Essa é uma das razões pelas quais o Cazaquistão se tornou um estudo de caso útil. Ele demonstra como os conflitos em relação à liberdade de expressão se desenvolvem cada vez mais por meio de processos legais e controle administrativo, em vez de ordens de censura explícitas como as antigas. Os governos não precisam fechar todas as publicações ou banir todos os críticos de forma absoluta. A pressão pode ser exercida por meio de denúncias criminais, restrições supervisionadas pelos tribunais, sistemas de licenciamento e credenciamento e leis redigidas em termos que podem parecer razoáveis à primeira vista, mas que são abrangentes o suficiente para se tornarem politicamente consequentes na prática. O Cazaquistão não é o único país onde essa tensão é visível atualmente.
Na França e na Itália, um debate diferente está se desenrolando em torno das propostas de legislação contra o antissemitismo. A Reuters informou esta semana Legisladores de ambos os países estão considerando novas medidas legais em resposta ao aumento de incidentes antissemitas desde a guerra em Gaza. Os defensores afirmam que as propostas são necessárias para lidar com um aumento real do ódio antijudaico. Os críticos, incluindo grupos de direitos humanos, acadêmicos e representantes ligados à ONU citados pela Reuters, argumentam que as leis correm o risco de confundir o antissemitismo com certas formas de crítica a Israel.
Medida proposta pela França O projeto de lei da IHRA visaria, entre outras coisas, incitações à destruição de Israel e comparações entre Israel e a Alemanha nazista, enquanto o projeto de lei da Itália incorporaria a definição de antissemitismo da IHRA à legislação. O contexto é claramente diferente do Cazaquistão, mas o dilema político subjacente é reconhecível: quão amplamente um Estado pode definir discurso nocivo sem também restringir a expressão política?
Em outros lugares, os governos estão ampliando o controle sobre o acesso online por meio de uma via diferente. Recentemente cobrimos A pressão contínua de países por toda a Europa para restringir o uso de redes sociais por crianças. Tais medidas são apresentadas sob o discurso da segurança infantil, e não do controle da liberdade de expressão. Mesmo assim, elas expandem a infraestrutura técnica por meio da qual o acesso ao espaço digital pode ser regulamentado e verificado. Em estados democráticos, esses sistemas são geralmente apresentados como restritos e proporcionais. Mas, uma vez implementados, seu uso inevitavelmente se ampliará.
A Romênia apresentou outra versão do mesmo problema subjacente, desta vez em torno das eleições e da influência online. A Comissão Europeia já havia aberto um processo. contra o TikTok por supostas falhas relacionadas à eleição presidencial da Romênia. Também foi alegado que a própria União Europeia havia impedido o candidato Călin Georgescu de participar do segundo turno, esclarecendo-se que a decisão havia sido tomada pela própria autoridade eleitoral romena. O caso romeno não se trata de processos contra jornalistas no sentido cazaque, mas demonstra a rapidez com que disputas sobre manipulação, poder das plataformas e legitimidade eleitoral podem levar os órgãos reguladores a supervisionar ativamente a comunicação política.
As disputas sobre a legislação de mídia no Cazaquistão pertencem ao seu próprio contexto político. França e Itália lidam com legislação antissemita. Governos europeus debatem a segurança infantil online. As autoridades romenas enfrentam questões de integridade eleitoral e conduta de plataformas digitais. No entanto, todas apontam para uma mudança mais ampla na governança. A liberdade de expressão está sendo cada vez mais tratada não apenas como uma liberdade que precisa de proteção, mas como um domínio que requer gestão, classificação e aplicação técnica. Essa mudança está produzindo diferentes instrumentos jurídicos em diferentes lugares, mas levanta uma questão comum: uma vez que esses instrumentos estejam normalizados, com que segurança os governos podem prometer que eles permanecerão restritos ao seu propósito original?
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